terça-feira, 14 de março de 2017

A turma da lista do Janot busca sua salvação

O plenário da Câmara dos Deputados (Foto: Agência Senado)

Enquanto o eleitor quer saber o que a Odebrecht tem a revelar, os políticos manobram para escapar da lei e se manter com foro privilegiado

Assim como a maioria dos brasileiros, os políticos em Brasília esperam pela divulgação da lista de pedidos de inquérito a ser apresentada ao Supremo Tribunal Federal pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, fruto dos depoimentos de 78 executivos da Odebrecht. A diferença é que, enquanto os brasileiros comuns – aqueles sujeitos à Justiça de primeira instância – querem conhecer os fatos, os políticos – a turma que tem a prerrogativa de ser investigada apenas pela equipe de Janot e ser julgada apenas pelo Supremo – sabem o que fizeram; só querem saber do que serão acusados. Por isso, usam seu tempo, poder e mandato para fazer leis capazes de salvar-lhes a própria pele.

A mais nova ideia é mudar o sistema eleitoral para estabelecer o voto em lista. Nesta modalidade, o eleitor não vota mais em um candidato a deputado ou senador, mas em uma lista de candidatos. Parece que não é nada, mas é. Primeiro, a lista fechada facilita o estabelecimento do financiamento público das campanhas, um jeito de contornar a falta do dinheiro que vinha das empresas – e que não deve voltar, depois que se souber o que a Odebrecht tem a contar. Outra é que será uma forma de um investigado se reeleger. Afinal, como a lista será elaborada pelos partidos, será dada preferência para quem já tem mandato. Corporativistas e solidários entre si, os políticos não deixarão de fora os colegas acusados. Assim, é uma forma de a turma da Lava Jato se eleger meio escondida, e ainda com dinheiro público. Será a forma de os investigados manterem o desejado foro privilegiado, no qual investigações e processos são mais lentos. Sem isso, muita gente cairá nas mãos do juiz Sergio Moro ou de colegas que podem ser tão duros quanto, como Marcelo Bretas, no Rio de Janeiro. Ninguém quer esse risco. 

Em outra área, deputados voltaram a debater formas de manter a propina paga pela Odebrecht como um tema eleitoral, longe da seara criminal – que é do que realmente se trata. Por isso, os deputados petistas Vicente Cândido e Carlos Zarattini – com o apoio de colegas de todos os partidos, diga-se – estudam saídas legislativas capazes de tornar as doações eleitorais um terreno livre da lei. São formas de evitar que candidatos sejam responsabilizados por crimes como corrupção ou lavagem de dinheiro ao receber dinheiro sujo em suas campanhas. Em público, todos dirão que são formas de evitar uma tal “criminalização da política”, “colocar as coisas no lugar” ou de “salvar a política”. Mas trata-se apenas de manobras de poderosos para evitar que a lei os atinja.

Época Globo