sábado, 8 de abril de 2017

A guinada de Trump na Síria


O ataque ao regime de Bashar al Assad representa uma virada do presidente americano – e é um sinal de que ele pode prosseguir com o intervencionismo dos Estados Unidos no mundo.

O primeiro ataque militar dos Estados Unidos contra a Síria sob as ordens de Donald Trump foi disparado com uma invocação divina. “Nós pedimos a sabedoria de Deus conforme enfrentamos os desafios de nosso mundo muito problemático”, disse o presidente dos Estados Unidos, ao anunciar, na noite da quinta-feira, dia 6, um bombardeio a forças do regime de Bashar al Assad.

Cinquenta e nove mísseis do tipo Tomahawk foram lançados de navios militares americanos no Mar Mediterrâneo contra a base aérea de Al Shayrat, na província de Homs. De acordo com os serviços de Inteligência dos Estados Unidos, Al Shayrat foi o ponto de partida do ataque com armas químicas, perpetrado por tropas de Assad contra a cidade de Khan Sheikhun, atualmente sob domínio dos grupos rebeldes e jihadistas que combatem o regime sírio. O bombardeio químico matou 72 pessoas. Foi a maior carnificina com o uso de armas com agentes tóxicos registrada desde 2013, na Síria, onde esse tipo de brutalidade, em menor escala, se tornou rotineiro, apesar de proibido pelas convenções de guerra. A ação de Assad chocou o mundo e provocou a reação de Trump. “Assad estrangulou a vida de homens, mulheres e crianças inocentes. Foi uma morte brutal e lenta para tantos. Mesmo lindos bebês foram cruelmente assassinados nesse ataque bárbaro. Nenhum filho de Deus deveria sofrer tamanho horror”, disse Trump ao anunciar o bombardeio.

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 A decisão de Trump representa uma guinada na política seguida pelos Estados Unidos, nos últimos seis anos, no conflito sírio. Em 2013, quando o primeiro ataque com armas químicas por parte do regime de Assad foi registrado, causando igual comoção no mundo, o então presidente Barack Obama falou de “uma linha vermelha” que não poderia ser cruzada. Obama ficou só nas palavras e não partiu para uma ação militar. Seu governo preferiu negociar, com participação da Rússia, um acordo para a retirada do arsenal químico do país. A chacina da semana passada deixou claro que Assad manteve estoques clandestinos. Na quinta-feira, Trump não perdeu a oportunidade de alfinetar Obama. “Anos de tentativas prévias de mudar o comportamento de Assad falharam, e falharam dramaticamente.”

A intervenção militar também significa uma mudança surpreendente na posição do próprio Trump, defendida antes de ser candidato e reiterada durante sua campanha pela Casa Branca. O republicano ganhou o pleito de outubro com o slogan “América em primeiro lugar”. Sua plataforma foi interpretada como o abandono da tradicional postura intervencionista dos Estados Unidos como “polícia do mundo”.


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